Minha mãe costura perto da janela,
faz a barra de um vestido azul.
A cidade corre lá na rua,
nessa mesa o tempo vai de ponto em ponto.
Eu cheguei com pressa e mil assuntos,
ela disse: senta, o café já vem.
Cada linha passa pelos dedos,
cada pausa me devolve o chão.
No varal de estrelas do quintal,
a gente pendura o que o dia amassou.
Deixa o vento cuidar devagar,
o que é da gente o tempo não levou.
Eu vestia os sonhos que ela fazia,
ela nunca tinha um traje novo pra si.
Hoje trouxe um pano cor de areia,
perguntei se ela dançava por aí.
Ela riu dizendo: estou enferrujada,
mas escolheu os brincos antes de acabar.
A agulha ficou quieta sobre a mesa,
ela abriu a porta pra noite entrar.
No varal de estrelas do quintal,
a gente pendura o que o dia amassou.
Deixa o vento cuidar devagar,
o que é da gente o tempo não levou.
Quando a gente volta, os lençóis balançam,
ela leva os sapatos na mão.
Nunca vi minha mãe tão leve assim,
parece que aprendeu outra canção.
No varal de estrelas do quintal,
a gente pendura o que o dia amassou.
Deixa o vento cuidar devagar,
o que é da gente o tempo não levou.